quarta-feira, 5 de março de 2014

Vingança é um prato que se come frio



Quando morava no interior de Alagoas conheci muita gente interessante, mas ninguém que se comparasse a Dona Candó. Dona Candó era uma senhora de 80 anos, que viajava sua imaginação em tempos remotos. Contava histórias do arco-da-velha, arco este que ela ainda possuía. Em uma noite gostosa de verão, Dona Candó contou que um dia, montada em seu cavalo, presente do pai, foi passear no lago. Dona Candó, ainda menina Candó, não vendo ninguém, resolveu se banhar. Como estava sem roupas de banho, retirou suas vestes e jogou-se no rio para se refrescar. Alazão, seu cavalo, ficara olhando aquela cena admirado. Ela, moça bonita de laço e de fita, nua em pelo, ficou ali durante um tempo. Quando saiu, eis que teve uma surpresa; suas roupas não estavam lá. Disse que procurou com os olhos ao redor do lago, não obtendo êxito em sua busca. Sem ver ninguém por perto, mas com a certeza de ser observada, a Menina Candó saiu do rio como se nada estivesse acontecendo. Montou em seu Alazão e foi para casa nua em pelo, sobre o pelo do cavalo. Ao chegar na velha porteira, sua mãe, assustada, indagou o  acontecido.
A Menina Candó, que não gostava da filha do Candongas, um bravo vizinho que há muito residia naquelas terras, disse que foi obrigada por ela a se despir e a subir no cavalo naquele estado.
Seu pai, quando chegou da lida, logo foi a casa de Candongas tirar satisfação. Dona Candó conta que no fim daquela noite só ouvia os gritos da menina, dizendo: tá cortando pai, tá cortando!! Não joga álcool não... Álcool não! O que realmente aconteceu ela disse até hoje não saber, só sabe que a menina Candongas saiu de casa uma semana depois, com marcas de fio cicatrizando.

Nem tudo o que parece é



Parecia música aos meus ouvidos quando ouvi o padre dizer “Até que a morte os separe”.
Casei por amor. Namorando há quase 8 anos, ele parecia o homem da minha vida. Não havia algo que eu imaginasse que não o incluísse. Desde o cardápio do almoço até uma roupa que eu usava. Será que ele vai gostar? Toda a minha vida era movida por ele. Sempre o dei todo o amor existente em mim.
Naquele dia, ao passar próximo a avenida e ver nosso carro passar – sim, eu tinha certeza de que era o nosso – com ele dirigindo e uma mulher ao seu lado, jamais imaginei que poderia tratar-se do que se tratava. Abri uma fresta do vidro traseiro do taxi em que estava, tentando não ser vista. Segui e não nego! Faria novamente. – Siga aquele carro – eu disse ao motorista. Ele ficou meio assustado, já que parecia, até então, tão calma e conversava sobre a família linda que tenho. Ele disse também ter filhos e ainda mostrou-me, orgulhoso, o penduricalho no retrovisor do carro, com a foto de seu mais velho se formando em medicina. De repente mudei a personalidade de tom, de voz, de lugar no espaço. Minha alma vagava como se nunca mais fosse pousar em mim. Milhares de cenas se passaram pela minha cabeça: as lágrimas de alegria que escorriam de nossos olhos no dia em que nos casamos, o nascimento de nosso primeiro filho, que ele assistiu, filmando cada detalhe, antes de desmaiar e ter que deixar a sala de parto, e do nosso segundo filho, que deu o nome de seu bisavô, todo orgulhoso, porque foi um médico muito importante, na época em que poucos cursos qualificavam para a profissão. Nunca poderia imaginar ver, depois de tudo o que passamos, uma cena daquela. Uma mulher no banco em que normalmente estou quando saímos juntos, em nosso carro. Curvas e mais curvas se passavam, depois de muitas retas e não chegavam a lugar nenhum. Senti as mãos suando, mas não dizia uma palavra. Apenas quando era interpelada pelo taxista, que perguntava se eu queria mesmo continuar aquela perseguição, eu respondia que sim, apenas que sim. Comemoraríamos mais um aniversário de casados no dia seguinte. Não podia acreditar que ele, um homem sério – aparentemente – pudesse pensar em traição. Ela o agradava em todos os quesitos possíveis: cuidava da família com carinho, criara os filhos, ainda jovem, deixando seus sonhos de lado, visitava poucas vezes os pais, para deixar que o marido ficasse só em casa, já que não podia viajar, devido ao trabalho, que lhe exigia muito. Todas aquelas cenas se passavam em sua memória, enquanto o carro ia a sua frente e ela imaginando em que motel entrariam. Não sabia que decisão tomaria quando isto acontecesse. Para sua surpresa, entrou em uma loja de joias e a mulher desceu com uma maleta na mão. Achou estranho, mas não poderia deixar de imaginar a bela joia que daria a uma desconhecida, e a ela, sua parceira de uma vida, só havia dado uma aliança, que os uniu até aquele dia. Ficou pensando no tamanho do brilhante que a mulher receberia, enquanto ele acreditava que ela estaria em casa, cuidando das crianças e de suas roupas, que eram impecáveis.
Entraram na loja, levaram um tempo lá dentro, enquanto ela observava pela fresta do vidro do taxi. Ela experimentava e sorria. Fazia gestos que doíam no coração da esposa, que aquela altura esperava que dali fossem para um motel com tapete felpudo, com banheira de hidromassagem, onde passariam a tarde e ele chegaria em casa, dizendo estar cansado do trabalho.
Cheia de fúria, pensou em descer do carro, mas viu quando ele pegou o telefone. Seu celular tocou e era ele. O que ela diria? Não havia pensado... resolveu não atender. Achou muita cara de pau dar satisfação a ela na frente de uma amantezinha qualquer. Com a insistência de três tentativas, ela resolveu atender.
- Oi, amor – disse ele com uma voz feliz.
- Oi – disse ela com ar de quem não sabia de nada.
- Estou com muita saudade de você. O que está fazendo – ele perguntou.
Sem querer dizer o que realmente fazia, assistindo aquela cena patética, ela disse simplesmente que fazia o de sempre e perguntou onde ele estava. Gaguejou, pigarreou e disse:
- Visitando um cliente.
Ela já havia perdido completamente o rebolado, mas queria ver até onde iria esta situação. Deu corda para que ele mesmo se enforcasse.
- Vou fazer um jantar especial esta noite, vê se consegue chegar mais cedo – ela disse.
- Tenho uma ideia melhor – disse ele – vou reservar um restaurante para jantarmos e já liguei para a babá, para ficar com as crianças. O que acha?
Sem entender, disse que achava ótimo, enquanto a mulher sorria dentro da loja, com o anel no dedo. Ela continuou observando e os dois saíram da loja. A mulher com sua pasta em uma das mãos e o presente em outra. Saindo de lá, a cena que ela esperava finalmente aconteceu: os dois entraram em um hotel de luxo. Sem reação, já ia descer do taxi, enquanto o taxista, que ficou todo o tempo calado, resolveu se manifestar. Pediu a ela que não fosse até lá, que não se humilhasse a este ponto. Pediu o endereço de alguma amiga e disse que a levaria até lá, para que evitasse tanta exposição. A esta altura qualquer coisa lhe estava ruim, mas ela aceitou sair dali, mas não quis ir logo para casa. Antes passou em uma loja caríssima, e comprou uma roupa especial para usar naquela noite, a altura da joia que ele dera a amante, que pela loja já sabia ser algo de valor superior ao orçamento mensal da família. Já em casa, ficara pensando em como o abordaria para que ele não fugisse do assunto ou não continuasse a enganando. Resolveu ser fria e fazer o jogo dele. Só no jantar ou depois diria que sabe de tudo e que o casamento acabaria por ali. Que cada um fosse viver a sua vida e que ele poderia, como todos os casais pacíficos, ver os filhos nos fins de semana ou pegá-los passear de vez em quando. Jurou ser madura e manter uma postura educada.
 Dando o horário de sua chegada, ela se arrumou, maquiou e se perfumou como se fosse a um primeiro encontro, mas seu coração estava remexido, certo de que seria o último do casamento.
Quando ele chegou, deu um beijo nela e elogiou, com um olhar de surpreso e encantado, ao mesmo tempo.
Sorriu e foi tomar banho. Vestiu a roupa que ela já havia deixado separada sobre a cama. Depois de algum tempo ele saiu, a pegou pela mão e entraram no elevador. Ela tentando fingir que estava tudo bem, mas um quê de desconfiada habitava em sua alma.
Chegando ao restaurante que ele disse que agendaria, era o mesmo hotel que ele entrara, mais cedo, com outra mulher. Ela achou uma falta de respeito levá-la para jantar no restaurante do hotel o qual havia levado a amante na mesma tarde. Não se continha... ia falar! O metre os recebeu e conduziu para sua mesa, já reservada. Ela não entendia e foi ficando cada vez mais nervosa. Sentaram após ele puxar sua cadeira e ajeitar. Pediu um vinho de safra especial. Aquela altura a alma já lhe saía do corpo. Vivia o seu inferno astral num restaurante de um hotel de luxo. Tentou dialogar durante o jantar, enquanto ele relembrava dos momentos bons que viveram juntos. Daí ela já achava que ele queria terminar e ela não daria este gostinho. Faria primeiro. Traída e descartada? Nunca!
Quando esboçou as palavras e tentou balbuciá-las, não deu tempo. Ouviu o som de um violino, que tocava a mesma música do dia em que se conheceram. Atrás vinha a mulher, que vira à tarde, entrar no hotel, com o pacote do presente na mão. Acreditando estar louca, perguntou o que estava acontecendo. Ele levantou-se, pegou o presente da mão da mulher, abriu e o colocou em seu dedo, dizendo:
- Espero que goste! Minha secretária escolheu um solitário delicado, como você, com uma pedra azul para combinar com seus olhos, e de brilhante, para representar o brilho que você traz a minha vida e de nossa família.
Para não parecer clichê, nem vou dizer que eles viveram felizes para sempre...

A senha salvadora



Tenho todas as razões do mundo para acreditar que um dia as coisas sempre mudam.Veja você que eu passeava pela 25 de março, como qualquer cidadão comum que faz as compras de Natal. Eis que levo uma das mãos ao bolso e, em uma rápida busca, percebo não ter nada nele. Procuro no outro e, nada também. Desesperado percebo que me tomaram os pertences. Fico parado ali por alguns minutos pensando no que fazer, em como faria para voltar pra casa e dizer às crianças que o Papai Noel este ano fora assaltado e não lhes levaria os presentes solicitados em suas cartinhas.
Caminhei até um pouco mais à frente. Lojas grandes e coloridas da alegria do Natal; brinquedos adornavam as calçadas; gente gritando, vendendo, comprando... Olhei para cima e pensei no momento em que saí de casa. Minha mulher olhava com olhos de quem já não aguentava mais aquele casamento falido, desgastado por um tempo que a prisão me levou.
Tudo estava mais difícil agora. Há dois meses, quando voltei pra casa, as coisas me pareciam diferentes de como as deixei; e realmente estavam... Mariana, minha pequenina, ficava assustada quando eu a olhava. Meu filho, José, trancava-se no quarto toda vez que eu punha os pés em casa. À mesa ficávamos  apenas eu de frente pra mulher, com aquele olhar acusador, o que me tivava a fome. Pensava no que tinha feito e não conseguia achar justificativa para tal comportamento de minha família.
Parado naquela confusão sem fim, imaginei muitas coisas, mas a pior delas foi como chegaria em casa sem os presentes. Aquele era o meu momento de remissão, minha reinclusão familiar. Eu dependia disso para me reabilitar.
Logo que retomei a realidade vi uma senhora, cheia de sacolas e com uma bolsa pendurada no braço esquerdo, segurando-a com força na frente. Imaginei que precisasse de ajuda. Rumei em direção a ela e me ofereci para carregar as sacolas; estavam leves, mas volumosas. Achei que com isso ganharia uma gorjeta, mas foi apenas isso!
Um taxi se aproximou e ela entrou nele. Deixou cair a bolsa, antes presa como as mãos ao corpo. Eu não tinha visto a bolsa cair. Só a vi quando o carro se afastava. Ainda tentei sinalizar para o motorista, que com tantos “passantes” não vira meus acenos.
Por dias fiquei imaginando o que teria dentro da bolsa. Talvez apenas documentos. Aprendi que não se abre bolsas alheias, principalmente de mulher, mas aquele momento não me deixava saída.
Precisava saber se teria algum contato que eu pudesse ligar para devolver a bolsa. Abri. Uma caneta, uma carteira com cartões de crédito e algumas notas de cem. Devo confessar que fiquei tentado, mas não podia fazer isso. Aquilo não era meu. Tudo mudou quando vi aquele bloco de notas rabiscado de tinta vermelha. Uns números, seis números. Pareciam combinações... combinações perfeitas. 894025. Fiquei tentando imaginar o que poderia ser aquilo. Certamente não era um número de telefone. Seria talvez um id de celular? Não! Faltaria o asterisco. Como uma visão dos céus pude logo perceber... 8, idade de minha filha; 9 idade de meu filho; 40 minha idade; 2? 5? 25? Já sei! Só podia ser a data de meu casamento. Mas foi mesmo 25? Ou 24? Ou uma outra data qualquer? Sei lá! Só sei o que mais me encorajou foi quando vi o nome do banco e agência bancária. Olhei para aqueles números como quem olha para um futuro brilhante. Fui até a agência e quando mostrei o documento dizendo que era de minha querida mãezinha logo me chamaram para entrar. Prioridade! O gerente logo me disse que eu deveria transferir todo o dinheiro para outra conta antes que minha mãe gastasse tudo em compras; e completou:
 - Sinto dizer, senhor, mas sua mãe não está em seu estado normal. No mês anterior foram 500 mil em presentinhos. Isso depois de ter gasto outros 400 mil dois meses atrás. Em poucos anos a fortuna da família vai estar comprometida. O senhor precisa fazer algo.
O mais rapidamente possível vamos resolver isso, falei ao gerente. E resolvi! Confesso que fiquei tentado a buscar minha família. Como ficaria sozinho? Mudei de ideia quando pensei na fisionomia ressentida de minha mulher, no olhar de minha filha e na ausência de meu filho.
Ah, por que Madri? Estava escrito no bloco de anotações, de azul, entre os borrões vermelhos. E eu não podia deixar de seguir as orientações do destino, não é? Aliás, até hoje estou tentando descobrir o porquê do 25  da senha  que fez minha vida mudar para sempre. Em pensar que tudo isso começou quando eu fui assaltado.

Um aniversário inesquecível

      Acordei cedo naquele dia. Sete anos. Nem pensei como seria minha vida dali pra frente. Olhei para os lados. Não vi ninguém. “Não entendi!” Se já houvesse telefone naquela época, talvez tivesse a ideia de ligar para saber onde todos se meteram. Mas não tinha e pra dizer a verdade, nem fazia falta.
      Coador de café sobre a boca do bule, já com o pó dentro. Sobre a mesa de tronco de madeira não trabalhado, a água na chaleira “empretecida” pelo fogão à lenha coberta com uma tampa com um areado desproporcional.
      Coloquei a chaleira sobre a boca do fogão onde saía mais fogo. Parecia ter pressa. Pressa pra quê? Talvez para ir à escola. Mas não. Estava de férias. Aliás, esta sempre foi uma frustração. Fazer aniversário no período de férias. Talvez quisesse comemorar com  meus amigos. Acho que não. Não tinha muitos devido à distância de onde morava.
      Da casa de farinha, lá no alto do morro, ouvi um assobio. Aquele era o tradicional aviso que o beiju havia acabado de ficar pronto. Assobiei de volta avisando que já havia acordada.
      Em dez minutos meu tio chegava com duas solas de coco e alguns beijus fresquinhos dentro da cesta de carinho que trazia nas mãos. Disse-me: “Hoje é um dia especial e o café também vai ser especial.”
      Tia Alcídia (minha tia avó) já vinha chegando com uma rosa branca na mão. “Que ocê tenha muita saúde e paz e realize seus sonho, minha fia.” Viajei em suas palavras. (Que pena ter ido embora  de minha vida tão cedo!)
       Minha avó, que até então eu chamava de mãe, e meu avô, que até hoje chamo de pai, chegaram em seguida com um bolo de mandioca. Que delícia! Nunca comi outro igual. Parecia com sabor de carinho, misturado com amor e doçura. A vida era mais difícil e mais fácil.
      Depois do café, fui para o quarto ler um pouco do livro “A Formiguinha”, que ganhei na formatura da alfabetização (Ainda era assim que dizia naquele tempo). Minha avó preparava o almoço junto com tia Alcídia, tio Val e meu avô foram pra roça, enquanto minha tia ainda dormia (Nunca foi de acordar cedo.)
      Na hora do almoço, minha mãe, que trabalhava numa loja na cidade, como fazia em todos os meus aniversários veio me ver. Ela sempre saía muito cedo para trabalhar, eu ainda estava dormindo. Às vezes, quando chegava eu já havia dormido, não aguentava esperá-la. Era difícil vir a casa almoçar.     Quando vinha, tinha que voltar em quarenta minutos, tempo que o ônibus levava para ir ao ponto final e voltar. Eram somente três horários por dia.
      Antes de comer, tiramos duas fotos. Mamãe trouxera da cidade um fotógrafo para registrar aquele momento especial. Arrumou-me com uma jardineira jeans e uma blusa branca.
      Comemos no sofá da sala, investimento feito por mamãe comprometendo muitos meses de seu baixo salário.
      Dada a hora, mamãe e o fotógrafo voltaram para a cidade. Hoje não ajudei na louça do almoço. Era o meu dia. Adorava fazer aniversário. Tinha sempre um gosto de liberdade e motivação.
      À tarde fiquei no quarto escrevendo algumas palavras enquanto vovô foi à vendinha, perto de casa, comprar gás para o lampião, só usado em ocasiões especiais. À noite, enquanto esperávamos pela chegada de mamãe, vovó, vovô e tia Alcídia ficaram contando histórias à luz da lamparina e do lampião.
      Em meio à luz fornecida pela lua, pude ver um vulto no terreiro. Era mamãe chegando. Trazia em uma das mãos uma sacola e na outra um pequeno bolo confeitado. O momento da chegada de mamãe, quando não vencido pelo sono, era a hora mais esperada do dia pra mim, mas quando se tratava de meu dia de aniversário, era mais esperado ainda. Mamãe me beijou, deu a sacola com um presente. “Espero que goste!” Era uma linda boneca. A mais bonita e amada. Se comparada a outras, poderia dizer que foi a única. Um bebê da estrela. Durou muitos e muitos anos.
      Mamãe botou o bolo no tronco da cozinha, que nos servia de mesa, e todos nos dirigimos para lá. Cantamos parabéns, vovô reclamando do gasto do gás do lampião. Vovó dizendo que era só por uma noite, enquanto tia Alcídia só balançava a cabeça. Pelo despropósito da atitude e o olhar de felicidade, parecia adivinhar que este seria o último aniversário que comemoraria comigo. Tia Sandra, gordinha, querendo logo seu pedaço de bolo. Minha mãe mais feliz que todos, observando meu olhar de felicidade.
      Fomos dormir. Sonhei! (Acho que foi sonho! Não lembro direito.) Com um mundo tão puro, com pessoas que dialogavam, com a existência do amor pela família, com a valorização do pouco, por se ter tão menos. Não! Acho que não foi sonho. Acho que realmente as coisas eram assim.
Michele Maria 



Tudo parece se desfazer

Tudo parece se desfazer como uma teia mal feita,
Como o futuro com projeto imperfeito,
Como um historiador sem objeto de pesquisa,
Como um matemático sem a exatidão,
Como o mundo sem eu e você...
O que vai dizer a quem perguntar?
Que simplesmente deixou de me amar?
Que seu mundo não sou mais eu?
Que não sou mais seu?
Que não és mais minha?
Que sua vida seguiu outro rumo?
Que fiquei com o sumo de uma história que chegou ao fim?

Ai de mim...

Sorrisos e lágrimas

Dica:

“Sorrisos não garantem alegria assim como as lágrimas não simbolizam sofrimento”

Michele Maria

Tudo de novo


... E do alto da torre acenei com os olhos marejados, certa de que o amor havia partido e deixado comigo o tão famoso “pote até aqui de mágoas”, do grande Chico, e que daquele momento em diante o mundo teria outro prisma, quando olhado por meus olhos.

Tentei descer da torre; não consegui! As escadas pareciam mais longas (acho que isso acontece em todo recomeço). Fechei os olhos para não ver a altura da queda e... pulei! Pulei para o desconhecido, para a vida que estava pra viver, para juntar os cacos do coração; este foi o único que quebrou... quebrou como uma louça de cristal lavada por uma cozinheira distraída. E os pedaços, de tão pequenos, foram entrando pela corrente sanguínea. Sim... esta é a única explicação para tanta dor. Não há medico que possa dar laudo desta doença, somente um poeta...