Tenho todas
as razões do mundo para acreditar que um dia as coisas sempre mudam.Veja você
que eu passeava pela 25 de março, como qualquer cidadão comum que faz as
compras de Natal. Eis que levo uma das mãos ao bolso e, em uma rápida busca,
percebo não ter nada nele. Procuro no outro e, nada também. Desesperado percebo
que me tomaram os pertences. Fico parado ali por alguns minutos pensando no que
fazer, em como faria para voltar pra casa e dizer às crianças que o Papai Noel
este ano fora assaltado e não lhes levaria os presentes solicitados em suas
cartinhas.
Caminhei até
um pouco mais à frente. Lojas grandes e coloridas da alegria do Natal;
brinquedos adornavam as calçadas; gente gritando, vendendo, comprando... Olhei
para cima e pensei no momento em que saí de casa. Minha mulher olhava com olhos
de quem já não aguentava mais aquele casamento falido, desgastado por um tempo
que a prisão me levou.
Tudo estava
mais difícil agora. Há dois meses, quando voltei pra casa, as coisas me
pareciam diferentes de como as deixei; e realmente estavam... Mariana, minha
pequenina, ficava assustada quando eu a olhava. Meu filho, José, trancava-se no
quarto toda vez que eu punha os pés em casa. À mesa ficávamos apenas eu de frente pra mulher, com aquele
olhar acusador, o que me tivava a fome. Pensava no que tinha feito e não
conseguia achar justificativa para tal comportamento de minha família.
Parado
naquela confusão sem fim, imaginei muitas coisas, mas a pior delas foi como
chegaria em casa sem os presentes. Aquele era o meu momento de remissão, minha
reinclusão familiar. Eu dependia disso para me reabilitar.
Logo que
retomei a realidade vi uma senhora, cheia de sacolas e com uma bolsa pendurada
no braço esquerdo, segurando-a com força na frente. Imaginei que precisasse de
ajuda. Rumei em direção a ela e me ofereci para carregar as sacolas; estavam
leves, mas volumosas. Achei que com isso ganharia uma gorjeta, mas foi apenas
isso!
Um taxi se
aproximou e ela entrou nele. Deixou cair a bolsa, antes presa como as mãos ao
corpo. Eu não tinha visto a bolsa cair. Só a vi quando o carro se afastava.
Ainda tentei sinalizar para o motorista, que com tantos “passantes” não vira
meus acenos.
Por dias
fiquei imaginando o que teria dentro da bolsa. Talvez apenas documentos.
Aprendi que não se abre bolsas alheias, principalmente de mulher, mas aquele
momento não me deixava saída.
Precisava
saber se teria algum contato que eu pudesse ligar para devolver a bolsa. Abri.
Uma caneta, uma carteira com cartões de crédito e algumas notas de cem. Devo
confessar que fiquei tentado, mas não podia fazer isso. Aquilo não era meu.
Tudo mudou quando vi aquele bloco de notas rabiscado de tinta vermelha. Uns
números, seis números. Pareciam combinações... combinações perfeitas. 894025.
Fiquei tentando imaginar o que poderia ser aquilo. Certamente não era um número
de telefone. Seria talvez um id de celular? Não! Faltaria o asterisco. Como uma
visão dos céus pude logo perceber... 8, idade de minha filha; 9 idade de meu
filho; 40 minha idade; 2? 5? 25? Já sei! Só podia ser a data de meu casamento.
Mas foi mesmo 25? Ou 24? Ou uma outra data qualquer? Sei lá! Só sei o que mais
me encorajou foi quando vi o nome do banco e agência bancária. Olhei para
aqueles números como quem olha para um futuro brilhante. Fui até a agência e
quando mostrei o documento dizendo que era de minha querida mãezinha logo me
chamaram para entrar. Prioridade! O gerente logo me disse que eu deveria
transferir todo o dinheiro para outra conta antes que minha mãe gastasse tudo
em compras; e completou:
- Sinto dizer, senhor, mas sua mãe não está em
seu estado normal. No mês anterior foram 500 mil em presentinhos. Isso depois
de ter gasto outros 400 mil dois meses atrás. Em poucos anos a fortuna da
família vai estar comprometida. O senhor precisa fazer algo.
O mais
rapidamente possível vamos resolver isso, falei ao gerente. E resolvi! Confesso
que fiquei tentado a buscar minha família. Como ficaria sozinho? Mudei de ideia
quando pensei na fisionomia ressentida de minha mulher, no olhar de minha filha
e na ausência de meu filho.
Ah, por que
Madri? Estava escrito no bloco de anotações, de azul, entre os borrões
vermelhos. E eu não podia deixar de seguir as orientações do destino, não é?
Aliás, até hoje estou tentando descobrir o porquê do 25 da senha
que fez minha vida mudar para sempre. Em pensar que tudo isso começou
quando eu fui assaltado.
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