quarta-feira, 5 de março de 2014

A senha salvadora



Tenho todas as razões do mundo para acreditar que um dia as coisas sempre mudam.Veja você que eu passeava pela 25 de março, como qualquer cidadão comum que faz as compras de Natal. Eis que levo uma das mãos ao bolso e, em uma rápida busca, percebo não ter nada nele. Procuro no outro e, nada também. Desesperado percebo que me tomaram os pertences. Fico parado ali por alguns minutos pensando no que fazer, em como faria para voltar pra casa e dizer às crianças que o Papai Noel este ano fora assaltado e não lhes levaria os presentes solicitados em suas cartinhas.
Caminhei até um pouco mais à frente. Lojas grandes e coloridas da alegria do Natal; brinquedos adornavam as calçadas; gente gritando, vendendo, comprando... Olhei para cima e pensei no momento em que saí de casa. Minha mulher olhava com olhos de quem já não aguentava mais aquele casamento falido, desgastado por um tempo que a prisão me levou.
Tudo estava mais difícil agora. Há dois meses, quando voltei pra casa, as coisas me pareciam diferentes de como as deixei; e realmente estavam... Mariana, minha pequenina, ficava assustada quando eu a olhava. Meu filho, José, trancava-se no quarto toda vez que eu punha os pés em casa. À mesa ficávamos  apenas eu de frente pra mulher, com aquele olhar acusador, o que me tivava a fome. Pensava no que tinha feito e não conseguia achar justificativa para tal comportamento de minha família.
Parado naquela confusão sem fim, imaginei muitas coisas, mas a pior delas foi como chegaria em casa sem os presentes. Aquele era o meu momento de remissão, minha reinclusão familiar. Eu dependia disso para me reabilitar.
Logo que retomei a realidade vi uma senhora, cheia de sacolas e com uma bolsa pendurada no braço esquerdo, segurando-a com força na frente. Imaginei que precisasse de ajuda. Rumei em direção a ela e me ofereci para carregar as sacolas; estavam leves, mas volumosas. Achei que com isso ganharia uma gorjeta, mas foi apenas isso!
Um taxi se aproximou e ela entrou nele. Deixou cair a bolsa, antes presa como as mãos ao corpo. Eu não tinha visto a bolsa cair. Só a vi quando o carro se afastava. Ainda tentei sinalizar para o motorista, que com tantos “passantes” não vira meus acenos.
Por dias fiquei imaginando o que teria dentro da bolsa. Talvez apenas documentos. Aprendi que não se abre bolsas alheias, principalmente de mulher, mas aquele momento não me deixava saída.
Precisava saber se teria algum contato que eu pudesse ligar para devolver a bolsa. Abri. Uma caneta, uma carteira com cartões de crédito e algumas notas de cem. Devo confessar que fiquei tentado, mas não podia fazer isso. Aquilo não era meu. Tudo mudou quando vi aquele bloco de notas rabiscado de tinta vermelha. Uns números, seis números. Pareciam combinações... combinações perfeitas. 894025. Fiquei tentando imaginar o que poderia ser aquilo. Certamente não era um número de telefone. Seria talvez um id de celular? Não! Faltaria o asterisco. Como uma visão dos céus pude logo perceber... 8, idade de minha filha; 9 idade de meu filho; 40 minha idade; 2? 5? 25? Já sei! Só podia ser a data de meu casamento. Mas foi mesmo 25? Ou 24? Ou uma outra data qualquer? Sei lá! Só sei o que mais me encorajou foi quando vi o nome do banco e agência bancária. Olhei para aqueles números como quem olha para um futuro brilhante. Fui até a agência e quando mostrei o documento dizendo que era de minha querida mãezinha logo me chamaram para entrar. Prioridade! O gerente logo me disse que eu deveria transferir todo o dinheiro para outra conta antes que minha mãe gastasse tudo em compras; e completou:
 - Sinto dizer, senhor, mas sua mãe não está em seu estado normal. No mês anterior foram 500 mil em presentinhos. Isso depois de ter gasto outros 400 mil dois meses atrás. Em poucos anos a fortuna da família vai estar comprometida. O senhor precisa fazer algo.
O mais rapidamente possível vamos resolver isso, falei ao gerente. E resolvi! Confesso que fiquei tentado a buscar minha família. Como ficaria sozinho? Mudei de ideia quando pensei na fisionomia ressentida de minha mulher, no olhar de minha filha e na ausência de meu filho.
Ah, por que Madri? Estava escrito no bloco de anotações, de azul, entre os borrões vermelhos. E eu não podia deixar de seguir as orientações do destino, não é? Aliás, até hoje estou tentando descobrir o porquê do 25  da senha  que fez minha vida mudar para sempre. Em pensar que tudo isso começou quando eu fui assaltado.

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