Parecia
música aos meus ouvidos quando ouvi o padre dizer “Até que a morte os separe”.
Casei
por amor. Namorando há quase 8 anos, ele parecia o homem da minha vida. Não
havia algo que eu imaginasse que não o incluísse. Desde o cardápio do almoço
até uma roupa que eu usava. Será que ele vai gostar? Toda a minha vida era
movida por ele. Sempre o dei todo o amor existente em mim.
Naquele
dia, ao passar próximo a avenida e ver nosso carro passar – sim, eu tinha
certeza de que era o nosso – com ele dirigindo e uma mulher ao seu lado, jamais
imaginei que poderia tratar-se do que se tratava. Abri uma fresta do vidro
traseiro do taxi em que estava, tentando não ser vista. Segui e não nego! Faria
novamente. – Siga aquele carro – eu disse ao motorista. Ele ficou meio
assustado, já que parecia, até então, tão calma e conversava sobre a família
linda que tenho. Ele disse também ter filhos e ainda mostrou-me, orgulhoso, o
penduricalho no retrovisor do carro, com a foto de seu mais velho se formando
em medicina. De repente mudei a personalidade de tom, de voz, de lugar no
espaço. Minha alma vagava como se nunca mais fosse pousar em mim. Milhares de
cenas se passaram pela minha cabeça: as lágrimas de alegria que escorriam de
nossos olhos no dia em que nos casamos, o nascimento de nosso primeiro filho,
que ele assistiu, filmando cada detalhe, antes de desmaiar e ter que deixar a
sala de parto, e do nosso segundo filho, que deu o nome de seu bisavô, todo orgulhoso,
porque foi um médico muito importante, na época em que poucos cursos
qualificavam para a profissão. Nunca poderia imaginar ver, depois de tudo o que
passamos, uma cena daquela. Uma mulher no banco em que normalmente estou quando
saímos juntos, em nosso carro. Curvas e mais curvas se passavam, depois de
muitas retas e não chegavam a lugar nenhum. Senti as mãos suando, mas não dizia
uma palavra. Apenas quando era interpelada pelo taxista, que perguntava se eu
queria mesmo continuar aquela perseguição, eu respondia que sim, apenas que
sim. Comemoraríamos mais um aniversário de casados no dia seguinte. Não podia
acreditar que ele, um homem sério – aparentemente – pudesse pensar em traição.
Ela o agradava em todos os quesitos possíveis: cuidava da família com carinho,
criara os filhos, ainda jovem, deixando seus sonhos de lado, visitava poucas
vezes os pais, para deixar que o marido ficasse só em casa, já que não podia
viajar, devido ao trabalho, que lhe exigia muito. Todas aquelas cenas se
passavam em sua memória, enquanto o carro ia a sua frente e ela imaginando em
que motel entrariam. Não sabia que decisão tomaria quando isto acontecesse.
Para sua surpresa, entrou em uma loja de joias e a mulher desceu com uma maleta
na mão. Achou estranho, mas não poderia deixar de imaginar a bela joia que
daria a uma desconhecida, e a ela, sua parceira de uma vida, só havia dado uma
aliança, que os uniu até aquele dia. Ficou pensando no tamanho do brilhante que
a mulher receberia, enquanto ele acreditava que ela estaria em casa, cuidando
das crianças e de suas roupas, que eram impecáveis.
Entraram
na loja, levaram um tempo lá dentro, enquanto ela observava pela fresta do
vidro do taxi. Ela experimentava e sorria. Fazia gestos que doíam no coração da
esposa, que aquela altura esperava que dali fossem para um motel com tapete
felpudo, com banheira de hidromassagem, onde passariam a tarde e ele chegaria
em casa, dizendo estar cansado do trabalho.
Cheia
de fúria, pensou em descer do carro, mas viu quando ele pegou o telefone. Seu
celular tocou e era ele. O que ela diria? Não havia pensado... resolveu não
atender. Achou muita cara de pau dar satisfação a ela na frente de uma
amantezinha qualquer. Com a insistência de três tentativas, ela resolveu
atender.
-
Oi, amor – disse ele com uma voz feliz.
-
Oi – disse ela com ar de quem não sabia de nada.
-
Estou com muita saudade de você. O que está fazendo – ele perguntou.
Sem
querer dizer o que realmente fazia, assistindo aquela cena patética, ela disse
simplesmente que fazia o de sempre e perguntou onde ele estava. Gaguejou,
pigarreou e disse:
-
Visitando um cliente.
Ela
já havia perdido completamente o rebolado, mas queria ver até onde iria esta
situação. Deu corda para que ele mesmo se enforcasse.
-
Vou fazer um jantar especial esta noite, vê se consegue chegar mais cedo – ela
disse.
-
Tenho uma ideia melhor – disse ele – vou reservar um restaurante para jantarmos
e já liguei para a babá, para ficar com as crianças. O que acha?
Sem
entender, disse que achava ótimo, enquanto a mulher sorria dentro da loja, com
o anel no dedo. Ela continuou observando e os dois saíram da loja. A mulher com
sua pasta em uma das mãos e o presente em outra. Saindo de lá, a cena que ela
esperava finalmente aconteceu: os dois entraram em um hotel de luxo. Sem
reação, já ia descer do taxi, enquanto o taxista, que ficou todo o tempo
calado, resolveu se manifestar. Pediu a ela que não fosse até lá, que não se
humilhasse a este ponto. Pediu o endereço de alguma amiga e disse que a levaria
até lá, para que evitasse tanta exposição. A esta altura qualquer coisa lhe
estava ruim, mas ela aceitou sair dali, mas não quis ir logo para casa. Antes
passou em uma loja caríssima, e comprou uma roupa especial para usar naquela
noite, a altura da joia que ele dera a amante, que pela loja já sabia ser algo
de valor superior ao orçamento mensal da família. Já em casa, ficara pensando
em como o abordaria para que ele não fugisse do assunto ou não continuasse a
enganando. Resolveu ser fria e fazer o jogo dele. Só no jantar ou depois diria
que sabe de tudo e que o casamento acabaria por ali. Que cada um fosse viver a
sua vida e que ele poderia, como todos os casais pacíficos, ver os filhos nos
fins de semana ou pegá-los passear de vez em quando. Jurou ser madura e manter
uma postura educada.
Dando o horário de sua chegada, ela se
arrumou, maquiou e se perfumou como se fosse a um primeiro encontro, mas seu
coração estava remexido, certo de que seria o último do casamento.
Quando
ele chegou, deu um beijo nela e elogiou, com um olhar de surpreso e encantado,
ao mesmo tempo.
Sorriu
e foi tomar banho. Vestiu a roupa que ela já havia deixado separada sobre a
cama. Depois de algum tempo ele saiu, a pegou pela mão e entraram no elevador.
Ela tentando fingir que estava tudo bem, mas um quê de desconfiada habitava em
sua alma.
Chegando
ao restaurante que ele disse que agendaria, era o mesmo hotel que ele entrara,
mais cedo, com outra mulher. Ela achou uma falta de respeito levá-la para
jantar no restaurante do hotel o qual havia levado a amante na mesma tarde. Não
se continha... ia falar! O metre os recebeu e conduziu para sua mesa, já
reservada. Ela não entendia e foi ficando cada vez mais nervosa. Sentaram após
ele puxar sua cadeira e ajeitar. Pediu um vinho de safra especial. Aquela
altura a alma já lhe saía do corpo. Vivia o seu inferno astral num restaurante
de um hotel de luxo. Tentou dialogar durante o jantar, enquanto ele relembrava
dos momentos bons que viveram juntos. Daí ela já achava que ele queria terminar
e ela não daria este gostinho. Faria primeiro. Traída e descartada? Nunca!
Quando
esboçou as palavras e tentou balbuciá-las, não deu tempo. Ouviu o som de um
violino, que tocava a mesma música do dia em que se conheceram. Atrás vinha a
mulher, que vira à tarde, entrar no hotel, com o pacote do presente na mão.
Acreditando estar louca, perguntou o que estava acontecendo. Ele levantou-se,
pegou o presente da mão da mulher, abriu e o colocou em seu dedo, dizendo:
-
Espero que goste! Minha secretária escolheu um solitário delicado, como você,
com uma pedra azul para combinar com seus olhos, e de brilhante, para
representar o brilho que você traz a minha vida e de nossa família.
Para
não parecer clichê, nem vou dizer que eles viveram felizes para sempre...